1. Introdução: Onde reside o “significado” de uma palavra?
Quando pronunciamos palavras cotidianas como “água”, “ouro” ou “Aristóteles”, como esses sons ou marcas de tinta conseguem ultrapassar as fronteiras da nossa mente para se referir com precisão a substâncias químicas ou indivíduos históricos no universo físico?
Desde a tese de John Locke no século XVII de que as palavras são sinais das “ideias na mente de quem as usa”, até a filosofia analítica de Gottlob Frege, Bertrand Russell, Rudolf Carnap e John Searle no século XX, a filosofia da linguagem foi dominada por uma ortodoxia profundamente intuitiva: o internalismo semântico e o descritivismo. Segundo essa visão, compreender o significado (a intensão) de um termo consiste simplesmente em possuir dentro da própria cabeça (cérebro ou consciência) um conceito ou uma lista de descrições identificadoras; e esse estado mental interno determina por si só quais objetos do mundo exterior constituem a referência (a extensão) da palavra.
No entanto, no início da década de 1970, duas obras revolucionárias derrubaram esse edifício clássico: as conferências de Saul Kripke O Nomear e a Necessidade (Naming and Necessity, 1972/1980) e o célebre ensaio de Hilary Putnam “O significado de ‘significado’” (The Meaning of “Meaning”, 1975).
Por meio de seu famoso experimento mental da Terra Gêmea (Twin Earth: $\text{H}_2\text{O}$ vs. $\text{XYZ}$), Putnam demonstrou um paradoxo impressionante: no ano de 1750 (antes do surgimento da química moderna), um falante na Terra (Oscar) e seu duplicado molécula por molécula na Terra Gêmea (Oscar Gêmeo) podem estar em estados psicológicos e neurofisiológicos estritos 100% idênticos e, ainda assim, sua palavra “água” refere-se a substâncias químicas completamente diferentes ($\text{H}_2\text{O}$ vs. $\text{XYZ}$), possuindo portanto significados diferentes! Como Putnam concluiu em sua famosa frase:
“Corte a torta como quiser, os ‘significados’ simplesmente não estão na cabeça! (Cut the pie any way you like, ‘meanings’ just ain’t in the head!)"
Neste artigo, examinamos a transição do descritivismo clássico (Frege, Russell, Searle) para os designadores rígidos e as verdades necessárias a posteriori de Kripke, a Terra Gêmea e a divisão do trabalho linguístico de Putnam, o externalismo social de Tyler Burge (o experimento da artrite) e suas implicações contemporâneas para os Grandes Modelos de Linguagem (LLMs) e o problema do ancoramento de símbolos (Symbol Grounding Problem).
2. A tradição internalista e descritivista clássica: Frege, Russell e Searle
2.1 O quebra-cabeça de Frege e “Sobre o Sentido e a Referência” (1892)
Em 1892, Gottlob Frege abriu seu ensaio clássico “Über Sinn und Bedeutung” propondo um enigma sobre enunciados de identidade (o quebra-cabeça de Frege). Compare estas duas sentenças:
- $a = a$: “Héspero é Héspero” (“A Estrela Vespertina é a Estrela Vespertina”).
- $a = b$: “Héspero é Fósforo” (“A Estrela Vespertina é a Estrela Matutina”).
Astronomicamente, tanto "Héspero" quanto "Fósforo" designam exatamente o mesmo corpo celeste: o planeta Vênus:
Se o significado de um nome se esgotasse em sua referência / extensão (Bedeutung), então $a = b$ teria o mesmo valor cognitivo que a tautologia trivial $a = a$. Contudo, $a = a$ é uma verdade analítica cognoscível a priori, ao passo que $a = b$ foi uma descoberta astronômica empírica a posteriori de imenso valor informativo.
Para resolver esse paradoxo, Frege dividiu o conteúdo semântico em dois níveis:
- Referência / Extensão (Bedeutung): o objeto concreto no mundo físico (o planeta Vênus).
- Sentido / Intensão (Sinn): o “modo de apresentação” (Art des Gegebenseins) do objeto, isto é, o critério conceitual apreendido pela mente do falante (o astro mais brilhante ao entardecer no oeste vs. o astro mais brilhante ao amanhecer no leste).
Segundo Frege, o falante compreende um termo ao apreender mentalmente seu sentido (Sinn), e o sentido determina de forma única a referência (Bedeutung).
flowchart TD
subgraph SpeakerMind["Mente do falante / Esfera conceitual (Intension / Sinn)"]
S1["Sentido (Sinn) de 'Héspero'<br/>'O astro vespertino no céu ocidental'"]
S2["Sentido (Sinn) de 'Fósforo'<br/>'O astro matutino no céu oriental'"]
end
subgraph ExternalWorld["Mundo físico externo (Extension / Bedeutung)"]
Ref["Referência (Bedeutung)<br/>O planeta Vênus"]
end
S1 -->|"O sentido determina a referência"| Ref
S2 -->|"O sentido determina a referência"| Ref
2.2 A teoria das descrições definidas de Russell (1905) e o descritivismo de feixe de Searle (1958)
Em “On Denoting” (1905), Bertrand Russell analisou as descrições definidas da forma “o $F$ é $G$” ($\iota x\, F(x)$) mediante quantificação existencial e unicidade na lógica de primeira ordem:
$$\text{O } F \text{ é } G \iff \exists x \Big( F(x) \land \forall y \big(F(y) \to y = x\big) \land G(x) \Big)$$Russell sustentou que nomes próprios comuns (“Aristóteles”) e termos de espécies naturais (“água”, “ouro”) são na verdade descrições definidas disfarçadas ou abreviadas. Posteriormente, John Searle (1958) propôs o descritivismo de feixe (Cluster Descriptivism): um nome está associado a um feixe ponderado de descrições $\{D_1, D_2, \dots, D_n\}$ na mente do falante e refere-se ao objeto $x$ que satisfaz uma maioria ponderada suficiente dessas propriedades:
$$\llbracket N \rrbracket = \iota x \left( \sum_{i=1}^{n} w_i \cdot \mathbb{I}\big[D_i(x)\big] \ge \theta \right)$$2.3 Os dois dogmas fundamentais da semântica tradicional: (A1) e (A2)
Hilary Putnam sintetizou toda essa tradição clássica em dois pressupostos fundamentais:
- Pressuposto (A1) Solipsismo metodológico: Conhecer o significado (a intensão $I(t)$) de um termo $t$ consiste inteiramente em estar em um estado psicológico estrito ($\psi \in \mathcal{S}_{\text{narrow}}$) dentro da cabeça do falante (sem pressupor nada sobre o mundo exterior).
- Pressuposto (A2) A intensão determina a extensão: A intensão mental $I(t)$ fixa de maneira única a extensão $E(t)$ no mundo:
3. Saul Kripke e O Nomear e a Necessidade: Designadores rígidos e teoria causal
3.1 O experimento mental Gödel / Schmidt e a refutação do descritivismo
Saul Kripke demoliu o descritivismo por meio de três argumentos decisivos:
- O argumento modal: Se “Aristóteles” significasse “o mestre de Alexandre, o Grande”, então em um mundo possível contrafactual $w'$ onde Aristóteles nunca ensinou Alexandre, o enunciado verdadeiro $\Diamond(\neg \text{Taught}(\text{Aristotle}, \text{Alexander}))$ seria contraditório.
- O argumento epistêmico e semântico — O caso Gödel / Schmidt: Suponhamos que a única descrição que um falante comum associa a “Kurt Gödel” seja $D_{\text{Gödel}} =$ “o descobridor do teorema da incompletude da aritmética”. Imaginemos que, na realidade, um matemático vienense chamado Schmidt provou o teorema, mas morreu misteriosamente antes de publicá-lo, e Gödel roubou o manuscrito e o publicou sob seu próprio nome. Segundo o descritivismo, como Schmidt é o único indivíduo que satisfaz $D_{\text{Gödel}}$ ($\iota x\, D_{\text{Gödel}}(x) = \text{Schmidt}$), quando dizemos “Gödel” estaríamos nos referindo a Schmidt! Kripke aponta o absurdo disso: ao dizer “Gödel”, referimo-nos sem dúvida ao próprio Gödel (e diríamos: “Gödel não provou o teorema, ele o roubou de Schmidt!”). Descrições na cabeça não determinam a referência.
3.2 Designadores rígidos e a teoria causal-histórica da referência
Na semântica de mundos possíveis $\mathcal{M} = \langle \mathcal{W}, \mathcal{D}, w_0, \mathcal{I} \rangle$, Kripke define:
- Designador não rígido (acidental): Uma descrição definida como “o inventor das lentes bifocais” designa diferentes indivíduos em diferentes mundos possíveis (Benjamin Franklin em $w_0$, Thomas Edison em $w_1$).
- Designador rígido (Rigid Designator): Um designador $d_{\text{rigid}}$ é rígido se e somente se designa exatamente o mesmo objeto $o_{\text{actual}}$ em todos os mundos possíveis $w \in \mathcal{W}$ nos quais esse objeto existe: $$\forall w \in \mathcal{W}, \quad \llbracket d_{\text{rigid}} \rrbracket_w = \llbracket d_{\text{rigid}} \rrbracket_{w_0} = o_{\text{actual}}$$
Nomes próprios (“Aristóteles”, “Héspero”) e termos de espécies naturais (“água”, “ouro”, “tigre”) são designadores rígidos. Sua referência é fixada por (1) um batismo inicial (Initial Baptism) por ostensão direta e (2) uma cadeia causal-histórica de comunicação ($S_0 \to S_1 \to \dots \to S_n$) através da comunidade linguística.
3.3 O fim do dogma kantiano: Verdades necessárias a posteriori
Dado que “Héspero” e “Fósforo”, assim como “Água” e “$\text{H}_2\text{O}$”, são designadores rígidos, sua identidade descoberta empiricamente no mundo atual $w_0$ mantém-se necessariamente em todos os mundos possíveis:
$$(\text{Água} = \text{H}_2\text{O}) \implies \Box(\text{Água} = \text{H}_2\text{O}), \quad (\text{Héspero} = \text{Fósforo}) \implies \Box(\text{Héspero} = \text{Fósforo})$$Kripke separa assim a necessidade metafísica ($\Box$) da aprioridade epistêmica, demonstrando a existência de verdades necessárias a posteriori.
4. O experimento mental da Terra Gêmea de Hilary Putnam (1975)
4.1 A Terra e a Terra Gêmea em 1750: $\text{H}_2\text{O}$ vs. $\text{XYZ}$
Em “O significado de ‘significado’” (1975), Putnam concebeu o famoso cenário da Terra Gêmea (Twin Earth):
- Identidade macroscópica e psicológica: A Terra Gêmea é macroscopicamente idêntica à Terra. Cada habitante terrestre como Oscar-Terra ($\text{Oscar}_E$) tem um duplicado exato Oscar-Gêmeo ($\text{Oscar}_{TE}$) com idênticos estados cerebrais e experiências subjetivas.
- A única diferença química microscópica: Na Terra, o líquido incolor, inodoro e potável chamado
"water"que enche rios e oceanos tem a estrutura química $\text{H}_2\text{O}$. Na Terra Gêmea, o líquido macroscopicamente indistinguível chamado"water"não é $\text{H}_2\text{O}$, mas um composto químico diferente abreviado como $\text{XYZ}$! - O ano de 1750: Antes de Lavoisier e Dalton, ninguém na Terra nem na Terra Gêmea sabe nada sobre $\text{H}_2\text{O}$ ou $\text{XYZ}$. Em 1750, $\text{Oscar}_E$ e $\text{Oscar}_{TE}$ encontram-se em estados psicológicos estritos 100% idênticos:
4.2 Por que $\text{XYZ}$ é “água dos tolos” e o colapso de (A1) e (A2)
Em 1750, a palavra "water" tem a mesma extensão na boca de $\text{Oscar}_E$ e de $\text{Oscar}_{TE}$? Absolutamente não!
O termo de espécie natural "water" possui um componente indexical implícito: designa toda substância que mantenha a relação $\text{same}_L$ (mesma microestrutura líquida) com esta amostra local de nosso ambiente:
Assim como a pirita de ferro ($\text{FeS}_2$, “ouro dos tolos”) jamais foi ouro ($\text{Au}$) nem mesmo na Antiguidade, o $\text{XYZ}$ da Terra Gêmea não é água, mas “água dos tolos” (Fool’s Water).
flowchart TD
subgraph Year1750["Ano 1750: Era pré-química (Estados cerebrais internos 100% idênticos)"]
OE["Oscar-Terra (Oscar_E)<br/>Estado psicológico estrito ψ:<br/>'Líquido claro, inodoro e potável'"]
OTE["Oscar-Gêmeo (Oscar_TE)<br/>Estado psicológico estrito ψ:<br/>'Líquido claro, inodoro e potável'"]
OE <-->|"ψ(Oscar_E) = ψ(Oscar_TE)<br/>Mentes exatamente idênticas"| OTE
end
subgraph EnvE["Ambiente físico da Terra"]
H2O["Ancoramento causal: Amostras locais<br/>Microestrutura: H2O<br/>Extensão E_Earth = {H2O}"]
end
subgraph EnvTE["Ambiente físico da Terra Gêmea"]
XYZ["Ancoramento causal: Amostras locais<br/>Microestrutura: XYZ<br/>Extensão E_TwinEarth = {XYZ}"]
end
OE -->|"A palavra 'water' refere-se a"| H2O
OTE -->|"A palavra 'water' refere-se a"| XYZ
Dado que $\psi(\text{Oscar}_E) = \psi(\text{Oscar}_{TE})$, mas suas extensões diferem ($\{\text{H}_2\text{O}\} \neq \{\text{XYZ}\}$), (A1) e (A2) não podem ser ambos verdadeiros: os significados não estão na cabeça!
5. Divisão do trabalho linguístico, externalismo social de Burge e IA (LLMs)
5.1 A divisão do trabalho linguístico (Olmos vs. Faias) e o vetor de significado
Putnam confessa não saber distinguir um olmo (Ulmus) de uma faia (Fagus): seus conceitos internos de "elm" e "beech" são idênticos ($\psi(\text{Putnam}, \text{``elm''}) = \psi(\text{Putnam}, \text{``beech''})$). Contudo, sua palavra "elm" refere-se exclusivamente aos olmos graças à divisão do trabalho linguístico: falantes leigos delegam a fixação exata da extensão aos especialistas (botânicos, químicos) de sua comunidade.
Putnam representa o significado mediante um vetor de significado de quatro componentes:
$$\vec{M}(\text{``water''}) = \big\langle \text{Marcadores sintáticos},\, \text{Marcadores semânticos},\, \text{Estereótipo},\, \text{Extensão} \big\rangle$$5.2 O externalismo social de Tyler Burge (1979): O experimento da “artrite”
Em “Individualism and the Mental” (1979), Tyler Burge demonstrou que até mesmo o conteúdo de nossas crenças mentais é externo:
- Bert (mundo real) acredita: “Minha artrite espalhou-se para a minha coxa”. Como a artrite é definida medicamente apenas como inflamação das articulações, Bert tem uma crença falsa sobre a artrite.
- Bert Gêmeo (mundo contrafactual) tem exatamente a mesma história física e estados cerebrais, mas em sua comunidade os médicos usam
"arthritis"(conceitotharthritis) para incluir dores reumáticas nos músculos da coxa. A crença de Bert Gêmeo é verdadeira! - Duas crenças com valores de verdade opostos não podem ter o mesmo conteúdo proposicional: nossos próprios pensamentos são individuados pelo ambiente social!
5.3 Implicações para os Grandes Modelos de Linguagem (LLMs) e o ancoramento de símbolos
Os LLMs treinados apenas com texto via predição do próximo token $P_\theta(w_t \mid w_{1:t-1})$ dominam com perfeição os estereótipos (componente 3 de Putnam). Como mostram o teste do polvo de Bender e Koller (2020) e os cérebros numa cuba de Putnam (1981), a referência não reside intrinsecamente nos pesos $\Theta$ da rede. Entretanto, como os corpora de treinamento foram escritos por seres humanos em interação causal com o $\text{H}_2\text{O}$ real e o mundo físico, os LLMs integram-se na cadeia causal-histórica e na divisão do trabalho linguístico humana, adquirindo assim uma referência derivada ou parasitária.
| Dimensão | Internalismo clássico e Descritivismo (Frege, Russell, Searle) | Externalismo semântico e social (Kripke, Putnam, Burge) |
|---|---|---|
| Tese central | O significado (intensão) é uma descrição mental na cabeça e determina a extensão. | “Os significados não estão na cabeça." A referência e o pensamento dependem do ambiente físico e social. |
| Nomes próprios e espécies naturais | Descrições definidas abreviadas ou feixes (designadores não rígidos). | Designadores rígidos ($\forall w \in \mathcal{W}, \llbracket d \rrbracket_w = o_{\text{actual}}$) que designam a mesma essência em todo mundo possível. |
| Caso Gödel / Schmidt | Prediz erroneamente que “Gödel” refere-se a Schmidt. | Refere-se corretamente a Gödel mediante a cadeia causal-histórica. |
| Terra Gêmea em 1750 | Estados cerebrais idênticos $\implies$ mesmo significado e extensão. | Apesar de cérebros idênticos, "water" designa $\text{H}_2\text{O}$ na Terra e $\text{XYZ}$ na Terra Gêmea. |
| Modalidade e Epistemologia | Necessário $\iff$ a priori; “Água $=\text{H}_2\text{O}$” é tido como contingente. | Estabelece verdades necessárias a posteriori: $\Box(\text{Água} = \text{H}_2\text{O})$, $\Box(\text{Héspero} = \text{Fósforo})$. |
