“As pessoas ao meu redor têm mais amigos do que eu e parecem estar a divertir-se muito…” Já alguma vez sentiu isso ao ver as redes sociais?
Na verdade, a razão pela qual se sente assim não é devido à sua personalidade ou por não ser popular. É um facto matemático provado pela teoria das redes e pela estatística, chamado “Paradoxo da Amizade (Friendship Paradox)”.
Descoberto pelo sociólogo Scott Feld em 1991, este paradoxo explica um fenómeno contraintuitivo de que “a maioria das pessoas tem menos amigos do que os seus próprios amigos”.
Por que “os amigos têm mais amigos”?
Resumindo, isto deve-se a um simples viés de amostragem: “Pessoas com muitos amigos (pessoas populares) aparecem na lista de amigos de muitas pessoas”.
Vamos pensar numa rede (grafo) simples.
Neste pequeno mundo, existem quatro pessoas: Alice, Bob, Charlie e David. Charlie é “popular” e é amigo de todos os outros três. Os outros três são amigos apenas do Charlie.
Vejamos o número de amigos de cada um.
- Número de amigos da Alice: 1
- Número de amigos do Bob: 1
- Número de amigos do David: 1
- Número de amigos do Charlie: 3 O número médio de amigos de todos é $(1 + 1 + 1 + 3) / 4 = 1.5$ pessoas.
De seguida, vamos calcular “a média do ’número de amigos dos amigos’ de cada pessoa”.
- Número de amigos do amigo da Alice (Charlie): 3
- Número de amigos do amigo do Bob (Charlie): 3
- Número de amigos do amigo do David (Charlie): 3
- Média do número de amigos dos amigos do Charlie (Alice, Bob, David): $(1 + 1 + 1) / 3 = 1$
Agora, comparamos cada “próprio” com a “média dos seus amigos”.
- Alice: Própria(1) < Média dos amigos(3)
- Bob: Próprio(1) < Média dos amigos(3)
- David: Próprio(1) < Média dos amigos(3)
- Charlie: Próprio(3) > Média dos amigos(1)
Das 4 pessoas, 3 (75% das pessoas) estão na situação de que “os seus amigos têm mais amigos do que elas próprias”. A presença do popular Charlie aumenta fortemente a “média dos amigos” de todos ao seu redor.
Prova Matemática: A Variância é a Chave
Vamos expressar isto com fórmulas. Na teoria das redes, que o número de amigos (grau) de uma determinada pessoa $v$ seja $k(v)$. Que o número médio de amigos em toda a rede seja $\mu$, e a variância do número de amigos seja $\sigma^2$.
Segundo a prova de Feld, o valor esperado do “número de amigos de um amigo escolhido aleatoriamente” é o seguinte:
$$ \text{Média do número de amigos dos amigos} = \mu + \frac{\sigma^2}{\mu} $$A variância $\sigma^2$ é sempre um valor de 0 ou superior. Ou seja, exceto na situação impossível em que todos têm exatamente o mesmo número de amigos ($\sigma^2 = 0$), a seguinte desigualdade é sempre verdadeira:
$$ \mu + \frac{\sigma^2}{\mu} > \mu $$A “média do número de amigos dos amigos” será sempre obrigatoriamente maior do que o “número médio de amigos em geral”.
No mundo real e nas redes sociais (como o X ou o Instagram), uma pequena fração de pessoas tem milhões de seguidores (amigos), enquanto a maioria tem apenas dezenas a centenas. Como a variância $\sigma^2$ é extremamente grande, o efeito deste paradoxo torna-se ainda mais forte.
Aplicação: Pandemias e Vacinação
O Paradoxo da Amizade não se limita apenas à psicologia das redes sociais. Têm sido feitas aplicações muito eficazes a problemas sociais reais, especialmente no controlo de doenças infeciosas.
Imagine que tem um número limitado de vacinas e não sabe a quem vacinar. Existe um método mais eficaz do que a vacinação aleatória.
- Escolha pessoas aleatoriamente.
- Vacine não as pessoas em si, mas sim os contactos que elas indicam como “amigos”.
Porquê? Devido ao Paradoxo da Amizade, os “amigos” de pessoas escolhidas aleatoriamente têm, em média, uma maior probabilidade de terem mais conexões (sendo centros/hubs). Ao vacinar prioritariamente as pessoas com mais conexões, é possível atrasar drasticamente a propagação da infeção por toda a rede.
Conclusão
Quando vê as redes sociais e sente que “toda a gente tem mais amigos do que eu e uma vida melhor”, isso não é uma ilusão sua, mas sim uma inevitabilidade matemática criada pela estrutura da rede.
Como as pessoas populares aparecem nas redes de muitas pessoas, somos inevitavelmente levados a observar quase apenas “pessoas mais populares do que a média” como amostras. Da próxima vez que estiver prestes a sentir-se deprimido nas redes sociais, por favor, lembre-se desta fórmula.
$$ \mu + \frac{\sigma^2}{\mu} > \mu $$